Manual prático do meu filho investidor

Capítulo 1

A herança do dinheiro

Você já parou para pensar quais foram os exemplos e referências que recebeu na infância sobre dinheiro, consumo e o sobre hábito de poupar. Já se perguntou como poderia ser sua vida financeira hoje se tivessem lhe ensinado a como lidar melhor com o dinheiro quando criança?

Em janeiro de 2020 os inadimplentes no Brasil somavam 63,8 milhões de pessoas, o que representa 40,8% da população adulta com o ‘nome sujo na praça', segundo dados da Serasa Experian. É evidente que as pessoas atrasam as suas contas por inúmeros motivos e não quero neste espaço endereçar aos nossos pais ou cuidadores na infância as mazelas da vida adulta financeira, mas falar com as crianças sobre dinheiro é muito mais do que ensiná-las a gerenciar suas finanças , é sobre transmitir alguns valores que irão acompanhar para sempre nossos pequenos. Esses valores são a paciência, as prioridades e os propósitos.

Hoje dou início a uma série de conteúdos que irão lhe ajudar a tratar do tema dinheiro com os seus filhos em casa. A seu favor, as crianças têm na renda fixa o benefício do tempo e seu poder sobre os juros compostos, algo por si só capaz de oferecer aos nossos filhos alguma tranquilidade financeira quando adultos. Na renda variável, os pequenos têm o poder de desde pequenos conhecer a economia real e apostar em empresas e projetos que fazem sentido com os valores da família. Mas o hábito de investir deve vir acompanhado de uma relação saudável com o dinheiro.

Eu sou mãe de duas crianças, Lara, de 10 anos e Luca, de 8 anos e, desde bem pequenos, falamos sobre dinheiro em casa. É óbvio, como toda mãe eu quero para os filhos uma vida financeira tranquila e próspera, mas como sempre digo: o dinheiro precisa ser o caminho, a ferramenta e não o fim em si.

Capítulo 2

Ensine o que é dinheiro

Afinal, de onde vem o dinheiro? O cartão de crédito é dinheiro? Comece explicando para os seus filhos o que é o dinheiro e como ele funciona. Eu sugiro que você inicie do básico, ensinando que o dinheiro é nada mais do que uma forma de trocar o que você não precisa pelo o que precisa. 

Na origem da civilização, as pessoas produziam alimentos e produtos apenas para o consumo próprio, plantando milho, arroz e etc., e quando havia uma produção em excesso de determinados produtos, trocavam em comunidade o excedente. A evolução dessas trocas deu início ao comércio e, com a descoberta dos metais, o valor da troca passou a ser representado por moedas e, mais tarde, pela moeda de papel como conhecemos atualmente.

Ao entender o dinheiro como um símbolo de troca, a criança percebe que antes de gastar, é preciso fazê-lo de forma concreta, fugindo de armadilhas como o parcelamento impensado através do cartão de crédito na vida adulta. 

Você pode começar pelo clássico cofrinho, ensinando aos seus filhos que, se querem um passeio ou um brinquedo, devem antes poupar dinheiro para atingir o objetivo. Este é um passo básico, mas que logo de cara ensina a criança a ter paciência e disciplina para guardar hoje, pensando em uma meta futura. Aliás, paciência deve ser exercida e ensinada às crianças desde bebês quando programadas às horas corretas das mamadas.

Pais que atendem prontamente aos desejos impacientes de seus filhos prestam um mau serviço a eles e por conseguinte à sociedade.

Capítulo 3

Trabalhar para conseguir dinheiro?

Ao falar sobre as origens do dinheiro, os seus filhos provavelmente virão com a pergunta: mas como conseguir dinheiro? Trabalhar é, sim, uma das formas de se conseguir dinheiro, mas perceba que relacionar o trabalho ao dinheiro não transmite valores a uma criança. 

O trabalho, antes de mais nada, precisa ser encarado como uma forma de compartilhar algo com as outras pessoas no mundo. 

Se você trabalha como professor, sua missão não é apenas passar o conteúdo, mas ensinar, explicar ao aluno como responder questões acerca de um problema. Fazê-lo pensar sob vários aspectos e assim promover transformação pela via do conhecimento.

Se você é empreendedor, resolve a dor de uma outra pessoa pela venda de seu produto ou serviço. Se você é advogado, vende seu tempo para defender seu cliente e ajudá-lo em questões nas quais são fundamentais para ele.

O motorista de ônibus leva pessoas para trabalhar, passear, encontrar familiares e realizar sonhos. Dirigir é apenas a forma de propiciar tudo isso. 

O trabalho é a venda do seu tempo para resolver a dor de uma outra pessoa.

Não reclame do trabalho na frente dos seus filhos. Eles irão crescer identificando o trabalho como algo penoso e necessário apenas para se obter dinheiro. Qual é o propósito do seu trabalho? Como ele impacta a vida de outras pessoas? Quanto você aprende todos os dias na sua atividade profissional?  Encontre o seu propósito e transmita para as crianças no seu entorno.

Trabalha-se para transformar algo que impacta na vida de alguém.

É preciso ensinar que todo trabalho tem um propósito, que não saímos de casa todos os dias pelo dinheiro, mas pelo propósito. Se você visa somente o dinheiro deve levar uma vida no piloto automático e as crianças tendem reproduzir suas ações já que aprendem pelos exemplos, não pelos discursos.

Capítulo 4

A escolha é sua, meu filho e minha filha

Quantas vezes para proteger nossos filhos, tomamos a frente e decidimos por eles?

Mas qual a lição aprendida cada vez que agimos dessa forma?
As crianças precisam fazer suas escolhas e aprender que elas têm consequências sobre o futuro – Essa atitude delega uma certa dose de responsabilidade aos seus filhos, o que é saudável para o desenvolvimento deles. 

Retomando o exemplo do cofrinho: se a escolha da criança foi gastar em doces e não poupar para o brinquedo desejado, não se intrometa. Explique que ele está abrindo mão de uma coisa, por outra, afinal, o dinheiro é só a troca. Errar é fundamental para o aprendizado e devemos deixar nossos filhos perceberem o poder que têm sobre as suas decisões.

Capítulo 5

Quando e como ensinar?

Recomendo que a partir dos três anos de idade as crianças possam gradualmente ser introduzidas ao dinheiro. Os meus filhos utilizaram o cofrinho até os 7 anos, depois disso fomos ao banco e abrimos uma conta com cartão de débito para cada um usar em necessidades diárias. Observei que eles deixavam de comprar o lanche na escola para poupar. Conversamos em família e, agora, parte do dinheiro é para gastar obrigatoriamente. Não quero criar filhos avarentos, que escolhem ficar com fome na escola para investir. Essa tampouco é uma relação saudável com o dinheiro.

Um bom planejamento financeiro é a arte de usufruir do presente sem sacrificar o futuro e vice-versa.

Outro ponto importante do ensino sobre finanças: o diálogo. Eu envolvo os meus filhos em todo o orçamento da família, isso os ajuda a entender e compartilhar responsabilidades com a casa, além de ser um espaço em que também podem falar sobre os seus desejos e identificar prioridades. O que eu quero é diferente do que eu preciso e, através do diálogo, os impulsos de consumo dão lugar à reflexão e metas para o uso do dinheiro.

A criança, antes de qualquer coisa, quer se sentir incluída nos seus planos, na sua vida, no seu dia a dia. Falar abertamente sobre as finanças em casa é uma excelente forma de torná-las parte ativa das decisões familiares.Quantas vezes para proteger nossos filhos, tomamos a frente e decidimos por eles?

Mas qual a lição aprendida cada vez que agimos dessa forma?
As crianças precisam fazer suas escolhas e aprender que elas têm consequências sobre o futuro – Essa atitude delega uma certa dose de responsabilidade aos seus filhos, o que é saudável para o desenvolvimento deles.

Retomando o exemplo do cofrinho: se a escolha da criança foi gastar em doces e não poupar para o brinquedo desejado, não se intrometa. Explique que ele está abrindo mão de uma coisa, por outra, afinal, o dinheiro é só a troca. Errar é fundamental para o aprendizado e devemos deixar nossos filhos perceberem o poder que têm sobre as suas decisões.

Capítulo 6

O tempo é das crianças

O dinheiro é só a moeda de troca para comprar o tempo. Quanto mais recursos você dispõe, mais pode pagar por atividades das quais não gostaria de exercer e desfrutar do tempo para fazer o que de fato lhe dá prazer. O tempo é um recurso escasso, finito, ele não volta. O tempo é nosso maior ativo e é limitado em 24 horas por dia independente de quanto seja o saldo de sua conta bancária.

As crianças precisam desde cedo aprender isso porque, através do dinheiro, podem ter mais tempo para se dedicar aos seus propósitos, às suas famílias e ao que realmente for importante para elas em vida.  

O tempo é também implacável na construção da educação financeira dos pequenos. Eu tenho uma filosofia: criança não precisa se preocupar em ter reserva de emergência e recomendo que elas invistam 100% dos recursos na renda variável, assim como eu faço com os meus filhos. Vou falar mais sobre isso nos próximos artigos. 

Eu destino 5% do orçamento familiar para o aprendizado financeiro dos meus filhos e você pode tirar esses 5% do seu percentual mensal destinado aos investimentos. Não dá para começar com 5% para as crianças? Comece com o que for possível. A lição vale mais do que o valor. 

Qual herança você vai deixar para os seus filhos? O seu filho precisa sim, de herança, mas as heranças intangíveis (aquelas que não podemos tocar), são as mais valiosas: as lembranças, as impressões, os valores, os exemplos e, se for possível, também alguma coisa material.

Que tal deixarmos de criar filhos para o mundo, e criarmos filhos para transformar o mundo? 

Capítulo 7

O que é preciso para tornar seu filho(a) investidor(a)?

Conversamos no meu último artigo sobre o porquê a educação financeira para as crianças de hoje é fundamental para os adultos de amanhã. Na minha casa, ensino meus filhos a serem investidores e não poupadores. Qual é a diferença? O poupador economiza em tudo o que pode, não toma riscos e, aos poucos, torna-se refém da necessidade de poupar cada vez mais. Já o investidor coloca o dinheiro para trabalhar pelos seus sonhos, procura aplicações que podem aumentar seu patrimônio e contribuir com a economia real.

Investir é diferente de poupar não apenas no resultado final do seu saldo, mas também na mentalidade por trás do dinheiro. Investindo em companhias no mercado, as crianças aprendem a lidar com o sobe e desce não apenas das ações, mas adquirem habilidades fundamentais para quem deseja empreender no futuro: paciência para conquistar em pequenas doses, resiliência ante às perdas e capacidade de se reinventar frente aos diversos cenários.

Investir vem do latim investire que significa revestir ou vestir de novo. Quando a criança entende a finalidade de dar uma nova utilidade ao dinheiro, fomentando negócios, alavancando a economia e sobretudo sendo parte das empresas que gosta de consumir – e ainda é premiada por isso – ela compreende o sentido de ser investidor e de diversificar os investimentos na vida. É sendo sócio e apostando nos projetos que se desenvolve um país. Quanto mais produtivo um país, maior é a renda per capita e menor desigualdade. 

O que é preciso para desenvolver em seus filhos a mentalidade de quem quer investir e não apenas poupar? Dar o primeiro passo na jornada do pequeno investidor. Por isso, hoje vou mostrar como abrir conta em banco e na corretora de valores para menores de idade

Capítulo 8

Investir pode ser uma carreira

Investir pode ser uma carreira para os seus filhos, mas isso não quer dizer que eles irão se alojar no rentismo financeiro. Pelo contrário, o ato de investir irá apenas lhes dar segurança para, quando adultos, poderem se dedicar a trabalhar em seus objetivos, com o que realmente amam e se identificam, e não apenas por um salário no fim do mês.

A carreira do investidor é possível a todos, independente da idade, mas as crianças têm o benefício do tempo a seu favor que, quando usado corretamente, pode potencializar  sonhos e oferecer tranquilidade na vida adulta.

Capítulo 9

Por que criança precisa de conta no banco?

Para investir, o seu filho não necessariamente precisa ter uma conta em banco, já que é possível utilizar a conta bancária do responsável legal nas transferências para a corretora, mas esse é um instrumento importante para a educação financeira dos pequenos e, se for possível, recomendo que seus filhos tenham conta em banco. 

Com a conta bancária, a criança aprende desde cedo a fazer a gestão digital do seu dinheiro, além de permitir que familiares e amigos possam presenteá-la com recursos financeiros, aumentando o capital do seu filho disponível para investimentos em ativos que poderão oferecer benefícios em longo prazo. 

Exemplo:
Esse é o kit de pequena investidora que minha filha tem desde bebê: identidade e cartão de banco em que ela recebe até hoje, com 10 anos, mesada, presentes de familiares e pode acompanhar seus gastos.

Capítulo 10

Como escolher o banco para o seu filho? (banco tradicional, banco digital e corretora)

Os bancos tradicionais são os que já conhecemos, com agências físicas, gerentes, burocracia, custos, taxas e opções de investimentos atreladas à bandeira do banco. Tudo faz parte do ‘pacote da tradição'. Para manter essa estrutura pesada há um preço (alto) embutido junto aos produtos e serviços que nos oferecem. Um modelo ultrapassado sobretudo para a geração atual.

Os bancos digitais, por sua vez, são boas opções principalmente para quem está começando. Oferecem facilidade, desburocratização e custos mais baixos comparados aos tradicionais.

Apesar de práticos, os bancos digitais ainda não disponibilizam todas as informações sobre categorias de investimentos e, logo, menos informações e análises restritas  não oferecem ao cliente a melhor experiência na hora de investir se comparados às corretoras de valores. 

Já as corretoras funcionam como um grande supermercado no mercado financeiro: concentram produtos de diferentes instituições, bancos, empresas e etc., ofertando esses ativos de forma 100% digital. Para o investidor, o resultado é o acesso a uma variedade de produtos financeiros e melhor experiência na hora de investir, tudo isso a um custo menor, e as melhores ferramentas de análises de investimentos. Com as corretoras, o seu filho também terá acesso ao home broker, plataforma em que são negociadas ações, fundos imobiliários e outros ativos da Renda Variável*. 

Segurança:

Todos têm a mesma segurança institucional, pois as garantias dos investimentos estão atreladas aos produtos e não à instituição. Bancos e Corretoras são monitorados pelo Conselho Monetário Nacional, a mãe do mercado financeiro. Portanto, são irmãos, esqueça essa história de que o banco A é mais seguro que a corretora B. O risco do investimento está atrelado aos ativos que respondem a outros fatores. 

Você pode escolher abrir ou não uma conta bancária para o seu filho, seja ele tradicional ou digital. A única coisa que, para investir, você não pode deixar de fazer é ter uma conta na corretora. 

O que é obrigatório para investir?
Carteira de identidade e CPF.
Possuir uma conta em banco (tradicional ou digital) em nome da criança ou do responsável legal. Para educação financeira o ideal é em nome da criança.
Possuir uma conta em uma corretora de valores porque há maior variedade de produtos financeiros, mais informações e análises com menor custo. 

Cuidado:
É fundamental que a conta da criança seja utilizada para os interesses dela e não se misture com as despesas e investimentos dos pais. Afinal, estamos educando nossos filhos financeiramente e transmitindo valores aos pequenos. Comprometa-se com o futuro da criança e seja fiel a esse objetivo. 

O exemplo, como sempre, vem de casa. Tudo que eu faço para mim, também faço para os meus filhos. Utilizo, sobretudo, as mesmas instituições, o que facilita na hora de automatizar os investimentos e negociar taxas. Levar a sério todo processo é sua missão como mãe/pai ou responsável legal.

Dica: Como emitir CPF para menor de idade durante a pandemia.

Como reflexo da pandemia, alguns governos estaduais têm facilitado a emissão de RG e a Receita Federal liberou a emissão por e-mail de CPF para menores de idade.

Para emissão de RG, consulte as regras aplicadas para o seu estado. Já para emissão do CPF, menores de 16 anos irão precisar dos seguintes documentos:

  • RG ou Certidão de Nascimento do menor e RG do responsável (pai, mãe ou tutor ou guardião judicial, anexando o respectivo termo de tutela/guarda);
  • Título de eleitor (facultativo);
  • Comprovante de endereço;
  • Selfie do menor de idade e do responsável, ambos segurando o documento de identidade aberto (frente e verso) onde deverá aparecer a fotografia e o número do documento legível.

O e-mail deve ser enviado para a região em que você vive:

1ª Região Fiscal (DF, GO, MT, MS e TO)
[email protected]

2ª Região Fiscal (AC, AM, AP, PA, RO e RR)
[email protected]

3ª Região Fiscal (CE, MA e PI)
[email protected]

4ª Região Fiscal (AL, PB, PE e RN)
[email protected]

5ª Região Fiscal (BA e SE)
[email protected]

6ª Região Fiscal (MG)
[email protected]

7ª Região Fiscal (ES e RJ)
[email protected]

8ª Região Fiscal (SP)
[email protected]

9ª Região Fiscal (PR e SC)
[email protected]

10ª Região Fiscal (RS)
[email protected]

Francine Mendes é fundadora e CEO da plataforma de conteúdo, educação e marketplace Elas Que Lucrem (EQL). Economista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em educação financeira para mulheres, Francine possui mestrado em Psicanálise do Consumo pela Universidad Kennedy, referência em psicanálise na América Latina, e também é fundadora do primeiro clube de investimentos para mulheres de Santa Catarina, o EllaInvest. Atuou como assessora de investimentos entre 2005 e 2011 na Premium Invest e foi presidente do Instituto de Educação Financeira Premium Educação, de 2008 a 2010.

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